No primeiro episódio do Futurus Bits, debatemos duas das tendências mais provocativas do momento: o suposto fim das vagas júnior no mercado de tech e a aposta de Mark Zuckerberg de que o smartphone estará morto até 2030.
Spoiler: as respostas são muito mais complexas do que os títulos sugerem.
Ouça o episódio completo:
O júnior não morreu, mas ele precisa ser diferente
Desde que modelos de linguagem, como o ChatGPT, ganharam tração, uma narrativa começou a circular pelo mercado: as vagas para desenvolvedores iniciantes estão com os dias contados.
Com uma IA ao lado, um profissional sênior entrega mais, mais rápido, por menos. Faz sentido na planilha, mas será que faz sentido para o ecossistema de talentos?
Anselmo Júnior, gerente executivo do Venturus, trouxe um dado relevante: a própria Anthropic, em estudo recente, aponta o desenvolvimento de software como uma das áreas com maior potencial de impacto pela IA. Mas o mesmo estudo revela que ainda existe um gap enorme entre o potencial teórico e o uso real da tecnologia no dia a dia das equipes.
"Os júniors que conhecemos hoje, certamente serão substituídos — mas os júniors do futuro, não. O diferencial será saber usar a IA como aliado, não como ameaça." — Rajev Rajan, CTO da Atlassian, citado por Anselmo Júnior
A provocação é elegante: e se os profissionais mais jovens, nativos digitais por natureza, forem exatamente os mais bem posicionados para absorver e potencializar o uso de IA? Ao contrário de muitos sêniors que carregam vícios de processo e resistência à mudança, a nova geração pode encarar a IA como extensão natural do seu fluxo de trabalho.
O que o mercado está fazendo, na prática:
- Várias empresas anunciam corte de vagas júnior em favor de times menores e mais seniorizados com IA
- IBM vai na direção oposta: aposta forte na contratação de profissionais iniciantes
- Líderes de RH alertam: sem júniors, quem serão os sêniors e gestores de amanhã?
- O CTO da Atlassian defende que o júnior do futuro é aquele que domina IA — não o que dispensa
Andressa Greggio, do time de Pessoas & Cultura do Venturus, trouxe a dimensão que mais costuma ficar de fora da conversa: a ética.
Saber usar uma ferramenta é diferente de saber tomar decisões conscientes com ela. Júniors podem ter letramento digital avançado, mas experiência de mercado, maturidade relacional e senso crítico ético levam tempo para se construir.
Lívia Dias, gerente de Produto, expandiu o ponto: e se a própria IA pudesse ser usada para acelerar essa curva? Agentes orientadores que guiam profissionais iniciantes em tarefas como discovery de produto, escrita de user stories e descrição de requisitos poderiam reduzir o tempo de rampeamento e transformar a IA em mentora, não em substituta.
2030: Zuckerberg quer matar o smartphone — e não está brincando
O segundo bloco do episódio migra para o horizonte de 2030 — um ano que virou quase um meme no universo tech, carregado de previsões sobre computação quântica, IA geral e o fim de paradigmas que pareciam imutáveis. Mas a afirmação de Mark Zuckerberg merece atenção especial: para o CEO da Meta, o smartphone não é o futuro — os wearables são.
Óculos com IA, relógios inteligentes, pins vestíveis, um ecossistema de hardware proprietário que não depende de Apple nem de Google. Parece ficção científica? Os Ray-Ban Meta já esgotaram estoques nos EUA antes de chegar à Europa. A demanda existe.
"Das grandes empresas de tecnologia, a Meta é a única que ainda não tem um hardware para chamar de seu. Isso explica muito sobre a direção que o Zuckerberg está tomando." — Anselmo Júnior
Lívia Dias identificou a jogada estratégica por trás do movimento: ao fechar um ecossistema próprio de hardware, a Meta deixa de depender de terceiros para coletar os dados que alimentam sua IA. É uma manobra de soberania de dados — e quem controla o hardware, controla o que é coletado.
A OpenAI também já sinalizou movimento nessa direção, com o desenvolvimento de seus próprios wearables. O objetivo é o mesmo: dado. Informação. Vantagem competitiva gerada a partir do comportamento real dos usuários no mundo físico.
As tensões que esse movimento levanta:
- Privacidade e vigilância constante: tudo monitorado, o tempo todo
- Segregação social: wearables não são baratos — e não pretendem ser
- Transumanismo na prática: a fusão entre capacidade humana e tecnologia já começou?
- Quem se beneficia dos dados coletados — e como?
Foi Andressa quem trouxe o ângulo mais filosófico: a discussão sobre wearables ressoa com o conceito de transumanismo, presente na ficção científica cyberpunk há décadas. A ideia de fundir capacidade humana com alta tecnologia para expandir o potencial da vida. Ainda estamos longe do extremo distópico — mas os primeiros passos já foram dados.
E ela deixou uma frase que resume bem a dualidade que estamos vivendo:
"Você vai ter tudo monitorado — que bom. Mas você vai ter tudo monitorado — e aí?" — Andressa Greggio
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